Da redação por Abrahão Crispim Filho

Abrahão Crispim de Souza nasceu no dia 22 de setembro de 1947, em Itabaiana-SE, filho dos comerciantes José Crispim de Souza e Maria de Lourdes Souza.

© Fornecida por divulgação

Começou a vida estudantil no Grupo Escolar Guilhermino Bezerra, porém logo sendo transferido para o Colégio Nossa Senhora Menina – da professora Maria Meneses Santos, a dona Maria de Branquinha -, onde concluiu o Curso Primário em 1960. Ingressou no Ginasial do Colégio Murilo Braga, concluindo o curso em 1964. Na época não existia o Segundo Grau em Itabaiana, tendo ele seguido a carreira estudantil na capital do Estado, Aracaju, aonde fez o Curso Científico no Colégio Atheneu Sergipense, entre os anos de 1965 e 1968.

Após o Científico, tentou o vestibular na Faculdade de Medicina da UFS, embrião da futura Universidade Federal de Sergipe, ainda em 1968, sem sucesso. Em 1972, todavia, foi aprovado no vestibular de Matemática, da agora UFS, porém, três anos depois resolveu que aquela não era a sua área, migrando para o curso de Biologia. Também não seguiu adiante com a Biologia e em 1978 ingressou no curso de Odontologia, onde se graduou em dezembro de 1981 como odontólogo, sendo ali orador da turma.

UM TRABALHADOR

Como todo Itabaianense da década de 1980, ainda criança começou a trabalhar, como vendedor de água na feira livre de Itabaiana ou “pegador de carrego”, transportador de compras de consumidores em carrocinhas de mão até suas residências ou caminhões de passageiros, quando estacionados distante da feira. Uma verdadeira universidade para pessoas de iniciativa.

Com a criação do Banco do Estado de Sergipe (Banese), nele ingressou mediante concurso em maio de 1968, numa posição que lembrou por toda a sua vida, de matrícula funcional número 68. A formação em Odontologia foi feita a duras penas, já que permaneceu no emprego de bancário, trabalhando no setor de compensação de cheques, à noite, e antes mesmo que colasse grau, já estava no Projeto Rondon, quando esteve nos estados do Ceará, Mato Grosso e no Paraná, nesse último por duas vezes. Ganhou grande experiência no Paraná, quando realizou 315 exodontias (extrações), num consultório com uma cadeira de madeira.

Numa de suas andanças pelo Projeto Rondon conheceu Rossilar Diana Oliveira Crispim de Souza, com quem se casou em 10 de dezembro de 1981 e teve quatro filhos: Newton Pires de Oliveira Netto, advogado; Abrahão Crispim de Souza Filho, jornalista; Katiucha Oliveira Crispim Vieira Costa, advogada e Katyucia Oliveira Crispim de Souza, enfermeira.

Durante sua trajetória estudantil foi também professor de Matemática nos colégios Salesiano por quatro anos, e Atheneu Sergipense, na capital. Lecionou ainda na extinta Escola Técnica de Comércio de Itabaiana, em 1971, e também em breve passagem pelo Colégio Estadual Murilo Braga.

Com muito trabalho e habilidade, soube compatibilizar a odontologia com política e a manutenção de seu emprego no Banese. Mas o moderno consultório odontológico montado no Centro Médico de Aracaju, na Praça Tobias Barreto, poucos anos depois foi alugado para terceiros, e alguns anos depois acabou por ser vendido. Abrahão era bancário e continuou bancário porque a atividade lhe dava a chance de fazer o que mais gostava: política.

O HOMEM POLÍTICO

Abrahão entrou no MDB, hoje PMDB, no seu nascedouro, já votando em José Hênio Araújo, candidato do partido à Prefeitura de Itabaiana em 1966, eleição ganha por Vicente Machado Menezes, da Arena. Com o irmão Atalo Crispim de Souza, os amigos- irmãos Vladimir e João Bosco Souza Carvalho e mais José Rivadálvio Lima, fundou o jornal O Serrano, em 1968, do qual se desligou em 1974. Mas não demorou muito longe da área de comunicação, a qual retornou em 1978, desta vez pela Rádio Princesa da Serra, com programa político-jornalístico de curta duração.

Em 1976 foi ele próprio o candidato a prefeito de Itabaiana do partido, obtendo meros 103 votos, num universo acima de sete mil. Lutador das causas perdidas, na qualidade de estudante na UFS, entre 1977 e 1980, participou de movimentos estudantis, com a tendência estudantil “Construção”, e foi presidente do Centro de Ciências Biológicas e da Saúde (CCBS ) e membro de vários conselhos: Departamental, Centro, Ensino, Pesquisa e do Universitário.

Entrou no Sindicato dos Bancários do Estado de Sergipe em 1977 e desde então, e até 2014, participou de todas as diretorias, tendo sido eleito presidente no período 1983/86, foi reeleito para os mandatos subsequentes – 1986/89 e 1989/1992. Em 1978 começou a militar no ainda clandestino Partido Comunista Brasileiro (PCB) por onde começou a flertar com uma novidade crescente: a fundação do Partido dos Trabalhadores, o PT, de onde logo depois sairia por divergir da direção.

Em 1986 foi candidato a deputado federal pelo PSB, obtendo 3.049 votos, não sendo eleito. Na qualidade de presidente do Sindicato dos Bancários candidatou-se a vereador da capital nas eleições de 1988, já de volta ao PT. Apesar de muito bem votado, com 671 votos, a legenda não ajudou; e nem mesmo Marcelo Déda Chagas, com mais de 10.521 votos se elegeu.

Em 1990, mais um insucesso eleitoral como candidato a deputado estadual, também pelo PT. Em 1992, contudo, a sorte vira e seus apelos são bem recebidos pelos seus 1.250 eleitores que confiaram o voto a ele, para o mandato de vereador da capital no quadriênio 1993-1996. Em 1994, exercendo o mandato de vereador tenta mais uma vez a Assembleia Legislativa de Sergipe obtendo apenas 1.640 votos, não sendo eleito deputado estadual. A tentativa de reeleição para a Câmara Municipal só lhe rende 1.034, ficando, pois, na suplência.

A perda de visão do olho esquerdo, motivada por intenso estresse, ocorrida durante seu exercício de vereador alertou-o para se poupar mais. Deixou de concorrer a cargos eletivos em 1998, mas não se desligou da política. Nos anos subsequentes ao seu mandato, foi assessor do então vereador Francisco Gualberto na mesma Câmara de Vereadores e depois na Assembleia Legislativa, quando esse foi eleito deputado estadual em 2006, até 2014.

A QUEDA DE UM GUERREIRO

O agitadíssimo estilo de vida desde a infância cobrou seu preço: em 2001, já sem a visão do olho esquerdo, foi diagnosticado com diabetes. Sem um bom controle, dado o seu gênio liberto e freneticamente dinâmico, a doença o levou a sofrer cinco acidentes vasculares cerebrais. O primeiro, no dia 19 de março de 2014, por volta das 17 horas, de natureza isquêmica, levou ao desmaio e consequente colisão do veículo que dirigia com outro. No acidente, fraturou duas costelas, perfurando o pulmão esquerdo, causando hemorragia interna, além de um corte profundo no olho esquerdo, uma trombose e um aneurisma na perna esquerda.

Internado no Hospital Primavera, em Aracaju, pediu para ter alta oito dias depois do ocorrido. Teve medo de fazer um cateterismo cardíaco, influenciado por opiniões contrárias ao procedimento. Com piora no quadro clínico, no dia 7 de abril foi internado no Hospital São Lucas, tendo, dois dias depois o primeiro diagnóstico de AVC hemorrágico, submetido à primeira cirurgia para drenar e debelar a hemorragia no dia seguinte. Na UTI e em coma, teve o segundo AVC hemorrágico no dia 22 de abril, com nova cirurgia. No dia 29 de maio, sequelado, deixou o hospital numa cadeira de rodas, sem andar e sem falar.

Sessões de fisioterapia e fonoterapia devolveram-lhe a fala, mesmo que truncada, e voltou a andar; contudo, ficou sem movimento no braço esquerdo e seu lado cognitivo foi muito afetado. Em seu aniversário, em 22 de setembro de 2014, teve o terceiro AVC hemorrágico, com nova internação, nova cirurgia e mais sequelas. Em novembro de 2014, voltou a ser internado, devido ao o quarto AVC hemorrágico, sendo submetido a mais uma cirurgia.

Ainda internado teve o quinto AVC de natureza hemorrágica, que foi o pior deles: teve que ser submetido a um procedimento cirúrgico por nome de craniotomia. Esse procedimento o deixou em um quadro irreversível de sequelas e bastante fragilizado. O procedimento o salvou da morte, mas as sequelas o deixaram com morte cerebral na parte cognitiva e o levaram a um agravamento da demência.

Faleceu dormindo e tranquilo, em sua residência, na madrugada do dia 10 de fevereiro de 2017. A todos, os inúmeros amigos e familiares, restaram saudades e as histórias, na maioria das vezes engraçadas de um espírito irrequieto, aguerrido, dinâmico, produtivo, às vezes até trapalhão, de um grande amigo, pai amoroso, esposo afetuoso, enfim, um homem admirável.


 

R7 TORPEDO - DE OLHO NA MÍDIA
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